Quanta Cultura!
Vejo sandálias de dedo, e a dieta balanceada
Vegetariano não come, mas calça o couro da vaca
Meia dúzia de verduras valem mais que um menino de rua
Fazendo poemas sobre o óbvio “estrela e lua”
Quanta Cultura! Quanta Cultura!
Arrotando milho verde mas comendo filé-mignhon
Paga de pobre, mas o táxi ruma ao Cine Odeón
Discursa o decorado Nietzsche mas incompreende Agamenon
Vive nos arredores do centro, mas mora no Leblon
Só Almodóvar é Deus, e viva o anti-americanismo
Mas trabalhando ou “malabarizando”, viaja-se de ismo em ismo
Comunismo, Socialismo, Guismo...
Quanta Cultura! Quanta Cultura!
Não aceita a pobreza do mundo
Por isso anda imundo
Pra aumentar o número
Estuda em escolas caras
Faculdade de artes plásticas
Carreira de beira de estrada
Vende o corpo como mercadoria
Prega a livre expressão sexual
Confundindo liberdade com a vulgaridade fatal
Anda com medo nas ruas, no esquema não corre que eu corro
Fuma e cheira sustentando o próprio medo
Medo do que se contesta pela TV, ou na pobreza do morro
De vergonha ou ignorância, o importante é o choro
(PARTE I )
Escrito por Bonilha às 20h41
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